A palavra como bússola e os percursos sensoriais de Júlia Mateus em Cartografia do não-lugar

“A casa abriga o devaneio, protege o sonhador, permite sonhar em paz”, escreveu Gaston Bachelard. Mas o que acontece quando não há casa, quando o abrigo é apenas um vestígio, e resta à palavra erguer paredes de ar?

Em Cartografia do não-lugar, Júlia Mateus convida o leitor a atravessar um território feito de memórias fragmentadas, luto e recomeço. Longe de mapas oficiais, o livro desenha um espaço de sobrevivência e invenção. Ao percorrê-lo, descobrimos que o “não-lugar” pode ser mais do que exílio: pode se tornar, através da poesia, um abrigo possível.

“Há momentos em que a vida parece suspensa em territórios sem raiz, onde tudo é transitório. A escrita surge como forma de mapear esses espaços de ausência, não para fixá-los, mas para torná-los reais.” — Júlia Mateus

Escrever para sobreviver: a alquimia do íntimo na poesia

Transformar a dor em linguagem nunca é tarefa simples. Júlia Mateus descreve a escrita de Cartografia do não-lugar como um gesto de sobrevivência, nascido em meio a um momento de crise pessoal. Mais do que catarse, o processo envolveu elaborar esteticamente experiências íntimas de forma que elas pudessem ultrapassar a confissão e dialogar com o outro.

Entre a urgência de nomear ausências e a disciplina de encontrar ritmo, imagem e forma, a autora costura uma poesia que não se contenta em ser desabafo. Cada escolha estética, o som das palavras, a cadência dos versos, a construção imagética, revela a tensão entre sentir e elaborar. É nesse espaço de atrito que a experiência pessoal se abre para a coletividade, permitindo que o leitor reconheça no texto não apenas a dor da poeta, mas um reflexo possível de sua própria travessia.

O vazio como território e a metáfora do não-lugar

O não-lugar em Júlia Mateus não é apenas ausência de pertencimento, mas uma experiência íntima que se desdobra em geografia poética. O título do livro já anuncia esse paradoxo: cartografar aquilo que não pode ser fixado, desenhar trajetórias que só existem no instante da travessia. O vazio, longe de ser paralisante, torna-se o espaço onde a palavra inscreve marcas de sobrevivência.

Mais do que um exercício estético, essa cartografia é uma forma de criar abrigo onde não há chão. Ao transformar deslocamentos em imagens e silêncios em ritmo, Júlia reconfigura a experiência de perda em linguagem capaz de gerar encontros. O mapa que surge é instável, mas vivo, feito de margens borradas e linhas que se reescrevem a cada leitura.

“Cada poema é um ponto no mapa – não um destino, mas uma marca de passagem, uma tentativa de transformar o não-lugar em lugar de encontro. A palavra, nesse sentido, funciona como bússola e abrigo: ela não resolve o exílio, mas cria uma geografia possível onde antes havia apenas vazio.” — Júlia Mateus

Assim, o livro não oferece respostas fixas, mas abre uma possibilidade de caminhar em terreno movediço. Essa travessia prepara o leitor para compreender que, na obra, a voz individual nunca é apenas íntima: ela se entrelaça à coletividade, ao histórico e ao político. É o próximo passo de sua poética.

este terreno de sentimento fértil precisou ser
desocupado por risco de desabamento.

primeiro saíram as crianças, contrariadas e sem
entender como pode um local que bate cem mil vezes
por dia e possui uma parede dupla de proteção — chamada pericárdio —
não conseguir se defender.

em seguida, saíram os homens e os idosos, céticos e
argumentando que, se só sentimos dor até o quinto tiro,
é bobagem desocupar depois do décimo quarto.

depois foi a vez das mulheres, que, antes de sair,
arrumaram a casa com a fé de que iriam voltar.

por último, saiu o poeta,
que preferia mais a vida de nômade quando ainda
não conhecia o conceito de lar.

Júlia Mateus, no poema “Aviso”, de Cartografia do não-lugar

O eu que ressoa em coro

Nesta obra, a voz da poeta nunca permanece isolada. O que começa como gesto íntimo logo se expande em ressonância, entrelaçando ancestralidade, espiritualidade e memória coletiva. Júlia Mateus afirma que, por ser mulher preta, LGBT e neurodivergente, sua experiência pessoal jamais pôde ser separada das marcas históricas e sociais que a atravessam.

Esse eu-lírico é singular, mas reverbera em coro: testemunha dores próprias e, ao mesmo tempo, convoca as vozes que a antecederam, transformando cada poema em testemunho e resistência. Assim, a poesia deixa de ser apenas confissão para se tornar também gesto político, um ato de memória e sobrevivência diante do apagamento.

Essa expansão da voz, do íntimo ao coral, prepara o leitor para adentrar a linguagem simbólica que sustenta o livro – imagens recorrentes que operam como bússolas poéticas, marcando o território sensorial da travessia.

“Eu sou uma mulher preta, LGBT, neurodivergente, que se identifica com uma religião afro-brasileira e que passou toda a infância existindo na última cidade do país a abolir a escravidão. Então acho que por muito tempo, pra mim, nunca houve uma diferença entre o íntimo e o coletivo histórico, porque todas essas questões sempre me atravessaram pessoalmente. Ser quem eu sou me fez aprender e honrar as vozes que me antecederam. O eu-lírico nasce desse entrelaçamento: é pessoal, mas não isolado; singular, mas ressoa em uma memória maior. A minha poesia nesse lugar é testemunho, resistência e um lembrete constante de presente. Transformar a experiência em linguagem é também um gesto político, uma forma de comunicar em mundo que a todo momento tentou me silenciar.” — Júlia Mateus

Cartografias sensoriais e ecos culturais

Em Cartografia do não-lugar, a poesia de Júlia Mateus se constrói na intersecção entre símbolos em movimento e referências culturais múltiplas. Mar, fogo, corpo e astros atravessam os poemas como imagens que nunca permanecem estáticas: traduzem estados internos, evocam geografias íntimas e funcionam como cartografias sensoriais capazes de orientar o leitor em meio ao vazio. O mar aparece como vastidão e promessa de renovação; o fogo, como destruição e recomeço; o corpo, como território de vulnerabilidade e resistência; os astros, como abertura para uma dimensão cósmica onde o íntimo se reconhece em algo maior.

Mas essa linguagem imagética não caminha sozinha. Júlia dialoga com outros universos, cita O Morro dos Ventos Uivantes, evoca Rico Dalasam, cruza personagens de Naruto e ressignifica cenas de filmes, canções e memórias pessoais. Cada referência, seja literária ou pop, não é apenas colagem, mas fio condutor de um imaginário que amplia a potência do poema. A poesia se torna, assim, testemunho íntimo e palco intertextual, em que camadas de sentido se sobrepõem e ressoam.

Essa fusão entre símbolos naturais e ecos culturais dá ao livro uma densidade singular, e é nesse movimento de expansão, entre o íntimo e o coletivo, o clássico e o pop, que a obra se abre como uma verdadeira cartografia sensível, preparando o leitor para o gesto final de reconstrução que encerra a travessia.

Um convite à travessia…

Cartografia do não-lugar é um território a ser percorrido. Júlia Mateus transforma o íntimo em experiência coletiva, o vazio em espaço habitável, a ausência em mapa de sobrevivência. 

A edição especial da Andrômeda Editora potencializa essa travessia, oferecendo um objeto estético em que palavra e imagem se entrelaçam. Ilustrações inéditas de Bruna Rossato e o projeto editorial de Ingrid Leandro colaboram ainda mais para uma experiência sensorial completa, onde os versos também podem ser vistos e tocados.

Este editorial é, portanto, um convite: deixe-se guiar por essas cartografias que não cabem em mapas oficiais. Caminhe pelas ruínas, pelas constelações, pelas memórias transformadas em poesia. Talvez você descubra que, mesmo em meio ao não-lugar, sempre há um abrigo possível, feito de palavras.

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