Quando Florbela Espanca escreveu “Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens!”, ela não fazia apenas um exercício lírico, mas também um gesto de ruptura, um ato de insubordinação poética e existencial contra os limites impostos ao feminino em sua época.
Enquanto Portugal ainda vestia seus espartilhos sociais e morais, Florbela escrevia com o corpo todo: misturando fé e erotismo, delírio e lucidez, gozo e agonia. Suas palavras atravessaram o tempo como uma ferida aberta que nunca se fechou, e que ainda pulsa em quem ousa sentir profundamente. Agora, nos cabe o gesto de escutar essa voz com os ouvidos de hoje.
Como reanimar uma voz?
Recentemente, a Andrômeda Editora lançou uma nova edição da obra de Florbela Espanca, Relicário em Verso, uma coletânea sensível e cuidadosa que reúne seus principais livros em um só volume, com ilustrações autorais, prefácio inédito e curadoria editorial comprometida com devolver à autora a profundidade e a potência da sua voz, que lhe foi muitas vezes negada.
Reeditar a obra de Florbela é consiste também no ato de perguntar: ainda há espaço, no presente, para uma poética que não teme o excesso? Que não tem vergonha do sentimento desmedido, do desejo incontido, da dor sem filtro?
Em um momento de linguagens estratégicas como o que vivemos, reler Florbela é ir na contramão. É permitir que a palavra volte a carregar densidade, sombra, respiração. Que a poesia recupere seu poder de inquietar, expor e estremecer.
Esta reedição nasce de um gesto: o de abrir um relicário, não como quem visita o passado com nostalgia, mas como quem toca um vestígio ainda vivo. Ainda palpitante. Será que, ao nos aproximarmos dessas palavras tão intensas, não acabamos também nos aproximando de partes nossas que estavam esquecidas?
Quem foi Florbela Espanca?
Florbela Espanca nasceu em 1894, em Vila Viçosa, no sul de Portugal. Era filha de um relacionamento extraconjugal entre uma camponesa, Antónia da Conceição Lobo, e seu patrão, João Maria Espanca. O romance acontecia com o consentimento da esposa dele, que não podia ter filhos.
Mesmo criada na casa paterna, Florbela foi registrada com o sobrenome da mãe, como filha de pai incógnito. Embora convivesse com o pai biológico, o reconhecimento legal só viria 18 anos após sua morte.
Sua vida adulta foi marcada por afetos intensos e desilusões profundas. Casou-se três vezes. Separou-se. Apaixonou-se. Recomeçou. Em 1927, perdeu o irmão Apeles, morto em um acidente de avião, tragédia que a mergulhou num luto irreversível.
Nos anos seguintes, enfrentou depressão severa, crises existenciais e várias tentativas de suicídio. Morreu em 1930, no dia em que completava 36 anos.
Entre o profano e o sagrado
É possível supor que, desde cedo, Florbela foi forjada em zonas de ambiguidade. Entre o pertencimento e o abandono. Entre o desejo de ser aceita e a urgência de ser livre. Foi nesse conflito que nasceu sua poesia. Uma escrita carregada de desejo, culpa, êxtase e lamento.
Florbela Espanca foi uma mulher que viveu intensa e profundamente a tensão entre opostos: o sagrado e o profano, a luz e a sombra, a esperança e o desespero.
Florbela não separava o corpo do espírito, nem o amor do sofrimento. Sua linguagem atravessa tanto a sensualidade quanto a devoção. Deseja como quem reza. Reza como quem arde.
Entre o sagrado e o profano, Florbela nunca escolheu um lado. Ela fundiu os dois. Sua poesia é liturgia e confissão. É carne em flor, alma em chamas.
Um relicário em verso
O título desta edição, Relicário em Verso, nasce da imagem de um objeto precioso, íntimo e resguardado, um relicário onde se guarda algo que se valoriza. Neste caso, o que se guarda são versos, memórias, fragmentos de uma alma que escreveu como quem sangra.
Com prefácio inédito de Luis Henrique Sierakowski, ilustrações autorais de Bruna Rossato e projeto editorial de Ingrid Leandro, esta edição busca facilitar a leitura dos poemas sem simplificá-los.
Todo o livro foi pensado para respirar junto com a poesia: margens generosas, tipografia fluida, ritmo visual que convida à imersão. As notas de rodapé e os comentários editoriais não pretendem decifrar o mistério, mas oferecer chaves de acesso, pistas de leitura, contextos que iluminam sem reduzir.
Essa escolha simbólica também aponta para a forma como a edição foi pensada: com curadoria minuciosa, que reúne os livros Livro d’Ele, Livro de Mágoas, Livro de Sorór Saudade, Charneca em Flor e Reliquiae. Cada um deles representa uma fase da trajetória de Florbela, e, juntos, funcionam como fragmentos de um espelho estilhaçado que, ao ser recomposto, revela o retrato mais complexo e íntimo da autora.
Mais do que reconstituir uma obra clássica, esta edição busca dialogar com o presente. Florbela escreve de um lugar que ainda reconhecemos: o daquilo que é íntimo demais para ser dito em voz alta, mas que precisa ser escrito.
A poética do excesso
Para quem deseja se debruçar sobre sua obra, é válido saber que a escrita de Florbela Espanca é um corpo em estado de transbordamento. Embora seus versos obedeçam à métrica clássica e rígida do soneto, o que se move dentro dessa forma é tudo menos contido. Florbela tensiona a linguagem, dobrando a tradição à sua sensibilidade extrema. A técnica, em suas mãos, torna-se recipiente para o vertiginoso: como se usasse o rigor da forma para conter o incontrolável.
Sua obra gira em torno de temas que ainda nos atravessam: o amor idealizado e o amor carnal, o desejo como pulsão vital, a dor como parte da experiência amorosa, a solidão, o sagrado, a morte, o cansaço da existência. As imagens que evoca, como anjos, túmulos, flores, crepúsculos, labaredas e rezas, formam uma poética marcada pelo contraste entre luz e sombra, céu e abismo, fé e erotismo.
A escrita confessional, subjetiva e intensamente emocional que atravessa tantas vozes femininas na poesia contemporânea tem em Florbela uma precursora inescapável.
Essa entrega também abriu caminhos. Florbela foi uma das primeiras mulheres a escrever o próprio desejo sem pedir licença, e isso reverbera até hoje. Poetas como Hilda Hilst, Ana Cristina César, Adélia Prado e Maria Teresa Horta e tantas outras, cada uma a seu modo, herdaram algo de sua coragem — seja no gesto de escrever com o corpo, seja na recusa de separar o amor da dor, ou na busca por uma linguagem que seja carne e espírito ao mesmo tempo.
A escolha da Andrômeda
Ao escolher Florbela, a Andrômeda Editora assume o compromisso de resgatar sua obra com rigor, mas também de reimaginá-la sob uma nova luz: não como figura trágica de uma mulher “demasiado sensível”, mas como uma poeta radicalmente moderna, que escreveu sem medo de romper.
Ao abrir esta edição, desejamos que cada pessoa leitora se sinta diante de algo íntimo e vivo. Que os versos de Florbela não sejam apenas lidos, mas sentidos. Que possam atravessar o peito, despertar lembranças, tocar feridas adormecidas, e, quem sabe, reencantar a relação com a poesia.
A pré-venda pela Andrômeda Editora vai até o dia 18 de agosto e é uma oportunidade de garantir Relicário em Verso com preço especial e brindes exclusivos, como canecas, ecobags, marcadores e cartões-postais ilustrados com artes originais do projeto gráfico. É um gesto de afeto a quem acredita na força da poesia e no valor de uma edição feita com esmero.

