Por muito tempo, o cânone brasileiro foi contado no masculino.
As escritoras brasileiras estavam lá, escrevendo, publicando, resistindo. Mas seus nomes eram apagados das antologias, das aulas, das listas de leitura obrigatória.
Isso vem mudando. Aos poucos, essas vozes voltam ao lugar que sempre foi delas.
Esta lista reúne quinze delas, das pioneiras do século XIX às autoras que escrevem o Brasil de hoje. Não é um ranking. É um convite.
Cada uma abriu uma porta. Juntas, formam uma linhagem de coragem e invenção que vale a pena conhecer de perto.
Sumário
As pioneiras que abriram caminho, do século XIX ao início do XX
Antes que a literatura de autoria feminina fosse aceita, algumas mulheres escreveram assim mesmo. Enfrentaram censura, pseudônimos forçados e o silêncio da crítica. São elas que sustentam tudo o que veio depois.
Maria Firmina dos Reis (1822 a 1917)
Filha de mãe escravizada, a maranhense Maria Firmina dos Reis é considerada a primeira romancista negra do Brasil. Em 1859, publicou Úrsula, um romance abolicionista raro para a época, porque dava voz e interioridade a personagens negros e escravizados. Escreveu também o conto Gupeva e poesia. Sua obra ficou décadas esquecida, e seu resgate é um dos mais importantes da nossa história literária.
Júlia Lopes de Almeida (1862 a 1934)
Júlia Lopes de Almeida foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, embora tenha sido barrada de ocupar uma cadeira por ser mulher. O lugar acabou entregue ao marido dela. Escritora prolífica e progressista, defendeu a abolição e a educação feminina. Seu romance mais conhecido, A Falência, de 1901, ainda figura em vestibulares e retrata com finura a sociedade carioca do seu tempo.
Gilka Machado (1893 a 1980)
A carioca Gilka Machado foi a primeira brasileira a publicar poesia abertamente erótica, num tempo em que isso custava caro a uma mulher. Enfrentou escândalo e preconceito para falar do desejo feminino sem rodeios. Entre seus livros estão Cristais Partidos, de 1916, e Mulher Nua, de 1922. Em 1933, foi eleita a maior poetisa do Brasil numa enquete popular, prova do reconhecimento que a crítica lhe negava.
Cora Coralina (1889 a 1985)
Cora Coralina publicou seu primeiro livro aos 76 anos. Doceira em Goiás, escreveu a vida simples do interior com uma sabedoria que atravessa gerações. Sua estreia, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, saiu em 1965 e encantou até Carlos Drummond de Andrade. Sua obra prova que nunca é tarde para ocupar o próprio lugar na literatura.
As grandes vozes da primeira metade do século XX
O Modernismo e as décadas seguintes trouxeram escritoras brasileiras que já não pediam licença. Elas experimentaram a forma, denunciaram a desigualdade e ampliaram para sempre o que a literatura brasileira podia dizer.
Cecília Meireles (1901 a 1964)

Poeta, pintora, professora e jornalista, a carioca Cecília Meireles é uma das vozes líricas mais importantes da língua portuguesa. Ligada à segunda geração modernista, escreveu uma poesia de rara musicalidade, atravessada por temas como o tempo, a solidão e o mar. Sua obra-prima, Romanceiro da Inconfidência, de 1953, revisita a história de Minas em versos. Escreveu ainda o clássico infantil Ou Isto ou Aquilo.
Patrícia Galvão, a Pagu (1910 a 1962)
Pagu foi furacão e pioneira. Escritora, jornalista e militante, tornou-se figura central do movimento antropofágico e a primeira mulher presa no Brasil por motivos políticos. Seu romance Parque Industrial, de 1933, publicado sob pseudônimo, é considerado o primeiro romance proletário brasileiro. Viveu à frente do seu tempo e pagou caro por isso, mas deixou uma marca impossível de ignorar.
Rachel de Queiroz (1910 a 2003)
A cearense Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, em 1977, e a primeira a receber o Prêmio Camões. Estreou aos vinte anos com O Quinze, de 1930, retrato seco e comovente da seca no Nordeste. Romancista, cronista e dramaturga, escreveu também As Três Marias. Sua prosa uniu rigor social e sensibilidade como poucas.
Carolina Maria de Jesus (1914 a 1977)

Catadora de papel e moradora da favela do Canindé, em São Paulo, Carolina Maria de Jesus registrou a fome e a miséria em cadernos encontrados no lixo. Desses escritos nasceu Quarto de Despejo, de 1960, um dos maiores fenômenos editoriais do país, traduzido para dezenas de idiomas. Sua escrita é documento e literatura ao mesmo tempo, uma das vozes mais potentes e necessárias que já tivemos.
As escritoras brasileiras que redefiniram a segunda metade do século
Na segunda metade do século XX, a literatura de autoria feminina alcançou uma força inédita. Essas escritoras brasileiras levaram a linguagem ao limite e transformaram a maneira de contar a experiência íntima.
Clarice Lispector (1920 a 1977)
Talvez a mais influente de todas as escritoras brasileiras, Clarice Lispector nasceu na Ucrânia e chegou ao Brasil ainda bebê. Ao lado de Guimarães Rosa, rompeu com a tradição narrativa por meio do fluxo de consciência e de uma prosa introspectiva e filosófica. Escreveu A Paixão Segundo G.H., de 1964, e A Hora da Estrela, de 1977, além da coletânea Laços de Família. Ler Clarice é entrar em contato com o mistério da própria consciência.
Lygia Fagundes Telles (1923 a 2022)
A paulistana Lygia Fagundes Telles foi por décadas a grande dama da literatura brasileira. Membro da Academia Brasileira de Letras e ganhadora do Prêmio Camões, construiu uma obra elegante sobre amor, morte, medo e loucura. Seu romance As Meninas, de 1973, é um retrato agudo da juventude sob a ditadura. Escreveu também Ciranda de Pedra e a premiada coletânea de contos Antes do Baile Verde.
Hilda Hilst (1930 a 2004)
Hilda Hilst foi das escritoras brasileiras mais radicais e visionárias que o país produziu. Poeta, ficcionista e dramaturga, mergulhou sem medo na sexualidade, na loucura e no sagrado. Formada em Direito, abriu mão de uma vida convencional e fundou a Casa do Sol, refúgio de criação onde viveu cercada de outros artistas. Entre suas obras estão A Obscena Senhora D, de 1982, e Cartas de um Sedutor. Sua escrita desafia e transforma quem a lê.
Adélia Prado (nascida em 1935)
A mineira Adélia Prado encontra o extraordinário no cotidiano. Sua poesia une o corpo e o espírito, o doméstico e o divino, com humor e perplexidade. Estreou em 1976 com Bagagem, apadrinhada por Carlos Drummond de Andrade, que reconheceu ali uma voz inteiramente nova. Escreveu ainda O Coração Disparado e Miserere. Poucas autoras falaram com tanta beleza da experiência de ser mulher e de ter fé.
Ana Cristina Cesar (1952 a 1983)
Ana Cristina Cesar, ou Ana C., foi um dos nomes centrais da geração mimeógrafo e da poesia marginal dos anos 1970. Poeta e tradutora, criou uma escrita afiada, íntima e cheia de subterrâneos, que confunde de propósito confissão e ficção. Seu principal livro, A Teus Pés, reúne o melhor de sua obra. Morreu jovem, aos 31 anos, deixando uma poesia que continua a inspirar leitores e escritoras.
As vozes contemporâneas que seguem escrevendo o país
A história das escritoras brasileiras não é passado. Ela continua sendo escrita agora, por autoras que renovam a língua e alargam quem tem direito a narrar.
Conceição Evaristo (nascida em 1946)
Conceição Evaristo é uma das vozes mais potentes da literatura contemporânea. Nascida numa favela de Belo Horizonte, trabalhou como empregada doméstica para estudar e tornou-se doutora em Literatura. Criou o conceito de escrevivência, a escrita que nasce da experiência de mulheres negras. Seus livros Ponciá Vicêncio, de 2003, e Olhos d’Água mergulham nas marcas de raça, classe e gênero, com personagens femininas de rara força. Sua literatura é ancestralidade e resistência.
Lygia Bojunga (nascida em 1932)
Lygia Bojunga é uma das maiores escritoras brasileiras da literatura infantojuvenil do mundo. Começou no rádio e no teatro antes de se dedicar aos livros, e em 1982 recebeu o Prêmio Hans Christian Andersen, a mais alta honraria do gênero. Suas histórias tratam crianças como leitoras inteligentes, capazes de encarar o medo, a perda e a liberdade. Entre seus títulos estão A Bolsa Amarela, de 1976, e Corda Bamba. É uma escrita que a Ursa Maior, nosso selo infantojuvenil, admira profundamente.
Andréa del Fuego (nascida em 1975)
Andréa del Fuego nasceu em São Paulo e é mestra em Filosofia pela USP. Estreou como contista, com títulos como Minto enquanto posso, antes de conquistar o Prêmio José Saramago com seu primeiro romance, Os Malaquias, de 2010, história de três irmãos separados pela morte dos pais. Sua obra já foi traduzida para diversos idiomas e transita entre o romance adulto e a literatura infantojuvenil, sempre com uma prosa poética e delicada diante do inesperado da vida.
Aline Bei (nascida em 1987)
Aline Bei é uma das grandes revelações da literatura brasileira contemporânea. Paulistana, formada em Letras e Artes Cênicas, estreou em 2017 com O peso do pássaro morto, romance que acompanha uma mulher dos 8 aos 52 anos e venceu o Prêmio São Paulo de Literatura. Seu lirismo e sua experimentação formal seguiram em Pequena coreografia do adeus e em Uma delicada coleção de ausências. É uma escrita que não teme a dor nem o afeto, sincera onde outros preferem a ironia.
Mariana Salomão Carrara (nascida em 1986)
Mariana Salomão Carrara é escritora e defensora pública, nascida em São Paulo. Sua obra constrói narrativas de aparente simplicidade que revelam, aos poucos, grande complexidade emocional, atravessadas por solidão, memória e os limites do compreender o outro. Não fossem as sílabas do sábado, de 2022, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura como melhor romance do ano. É uma voz que trabalha o desconforto sem nunca abrir mão do cuidado.
Carla Madeira (nascida em 1964)
Carla Madeira nasceu em Belo Horizonte e chegou tardiamente à literatura, depois de anos dedicados à publicidade e às artes. Seu romance de estreia, Tudo é Rio, nasceu de uma cena que a paralisou por quatorze anos antes de ser concluído, em 2014. Tornou-se a escritora mais lida do Brasil, com uma narrativa que flui entre intensidade e delicadeza, sem sentimentalismo barato. Sua obra prova que o tempo de amadurecer uma história também é parte da escrita.
Entre memória, corpo e transformação, essas escritoras brasileiras seguem construindo um mapa afetivo da literatura nacional, cada uma à sua maneira, cada uma com sua própria urgência de dizer.
Conclusão
Reunir quinze escritoras brasileiras é, ao mesmo tempo, uma celebração e uma escolha difícil. Ficam de fora tantas outras que também merecem ser lidas, estudadas e lembradas. Que esta lista funcione menos como ponto de chegada e mais como porta de entrada. Comece por uma autora que despertou sua curiosidade, leia um livro, siga o fio até a próxima.
A literatura de autoria feminina no Brasil é vasta, plural e cheia de vozes que ainda esperam por novos leitores. Na Andrômeda, acreditamos que dar espaço a essas vozes é parte essencial do trabalho de uma editora. Publicar mulheres, ontem e hoje, é bordar o invisível que sempre esteve ali. Que estas quinze sejam o começo de muitas descobertas.



