Arquivos do cotidiano e a quase dança de Emily Bandeira

Durante quase um ano, Emily Bandeira atravessou 55 cadernos escritos ao longo de duas décadas. Leu, marcou, transcreveu, reduziu. Reduziu de novo. E mais uma vez. O que chega ao leitor em Quase dá para chamar de dança não é o acúmulo desses anos, mas o que resistiu a eles.

Quando perguntada sobre o começo, Emily não aponta uma data, mas uma cena difusa: uma infância em que o caderno era, antes de tudo, possibilidade — objeto entre outros, brinquedo entre outros, espaço onde algo já se ensaiava sem ainda se nomear como escrita. 

Lembro de ser muito pequena e assistir a um filme da sessão da tarde em que uma garota tinha um diário e eu achava o máximo, acho que nessa idade já ensaiava minhas coisinhas, mas de outro jeito: o caderno era só mais uma das possibilidades de brinquedo. E ele ficou.

Anos depois desses primeiros cadernos, já atravessada pela prática de ler e escrever, Emily retorna a esse material sem a certeza do que procura, mas com a intuição de que algo ali poderia ser deslocado. É nesse gesto de retorno que Quase dá para chamar de dança começa a se delinear. 

Perguntamos à autora quando ela percebeu que o material poderia se tornar um livro, ao que ela nos explica que não houve uma virada definitiva, mas um atravessamento bastante espontâneo:

Passar muito tempo no processo de leitura e o fato de ‘fazer um tempo que eu não publicava nada’ me fizeram chegar a uma coceirinha de compartilhar escritos. Quando decidi criar um documento digital para transcrever o que eu ia achando de interessante, percebi que aquilo poderia ser matéria-prima de algo, mas não tinha certeza do quê. O livro mudou de formato algumas vezes até atingir sua forma final.

Há algo decisivo nessa passagem. Ao sair do caderno e entrar em outro suporte, a escrita começa a se reconfigurar como fragmento escolhido, reposicionado. E é justamente nesse rearranjo que o livro encontra seu movimento, sua dança. Não por acaso, o próprio título surge desse tipo de atenção ao fragmento. Um verso que se destaca, que organiza ao redor de si uma certa ideia de cadência. Quase dá para chamar de dança nomeia uma lógica interna do livro, a de uma escrita que se move entre tempos, corpos e estados, compondo uma espécie de coreografia íntima em que repetição e variação, impulso e contenção, constroem um ritmo próprio. 

Porém, reler a si mesma ao longo de tantos anos implica lidar com camadas que não se estabilizam, versões que se contradizem, que surpreendem, que por vezes modificam a própria percepção do presente. Quando perguntada sobre esse processo, Emily o descreve como “intenso e delicioso”, atravessado por ingenuidades, maturidades inesperadas, descobertas e transformações dos afetos:

Foi interessante ver as ingenuidades, algumas maturidades inesperadas, as descobertas, a transformação dos sentimentos. Teve de tudo: me ler no passado e me achar mais esperta do que no agora (preocupante), ou ler como eu era teimosamente otimista e doce e ficar até com um pouco de raiva por não ser mais assim (ou o ser de outros jeitos), mas também perceber outras evoluções dos pensamentos… Entender que muitas coisas, como meu repertório pessoal de interesses, se repetem mesmo sem que eu perceba. Algumas surpresas sobre minha própria identidade, sem que me perceba rígidas através das descobertas.

É a partir dessa fricção contínua que a escrita se apresenta como uma prática cotidiana na vida da autora, como um tipo de ritual que se infiltra nos dias, reorganizando a experiência a partir da linguagem. Ao longo dos anos, o caderno deixa de ser apenas espaço de anotação e se torna um lugar de presença. Perguntada sobre seu processo, Emily o descreve quase como um impulso recorrente:

Gosto de tomar tempo com o caderno e, muitas vezes, com um café ao lado, uma vela acesa por perto, mas quando não tem nada disso vai do jeito que dá mesmo: e isso pode ser no meio de uma voadeira no rio, apoiando o caderno nas pernas (sim, numa viagem de 6hrs pelo rio purus, o que eu ia fazer?) ou no quintal da casa das amigas, no meio da bebedeira de uma festa (parei de fazer isso, mas mais nova era um clássico). Então, é um processo bem orgânico e espontâneo, até porque, fora a vontade de me entender, não existe muita pretensão no ato.

Em Quase dá para chamar de dança a própria escrita se observa, se dobra sobre si mesma. Há, ao longo do livro, uma recorrência desse gesto de metaescrita, ou seja, escrever sobre o escrever, que surge como um atravessamento desde muito cedo. Quando perguntada sobre essa relação, Emily retorna à própria origem do projeto de leitura dos cadernos: a tentativa de entender quando essa autorreferência havia começado. A resposta, no entanto, permanece em aberto. Mesmo após atravessar décadas de registros, não há um ponto fixo que explique esse movimento. 

O que se delineia, em vez disso, é um prazer contínuo nessa dobra da linguagem, uma espécie de circuito em que escrever, ler e pensar a escrita se alimentam mutuamente, “um ouroboros da linguagem sobre ela mesma”, como a autora define. É nesse circuito que o livro também se sustenta, como investigação persistente sobre o próprio gesto de escrever.

Pensando no caráter circular desse processo, entendemos que escrita e leitura passam a operar como um mesmo movimento, e, diante disso, surge a pergunta: o que mudou mais, o que você escreve ou a forma como você lê o que escreveu? E o que muda mais já não pode ser separado. O que se forma é um encadeamento vertiginoso, uma espiral em que escrever e ler deixam de ser etapas e passam a constituir um mesmo movimento contínuo.

Ao longo do tempo, perceber que o que eu escrevia no presente teria valor num momento futuro certamente me trouxe novas atenções (eu posso me deixar lembretes), mas, ao mesmo tempo, existe uma certa despretensão que precisa ser alcançada na escrita do presente para que eu possa me entender verdadeiramente, então, evito ser auto-performática pensando no futuro.

Esse ponto exige uma negociação constante entre controle e entrega. Se, por um lado, há a consciência de que a escrita será relida — e, portanto, pode carregar marcas dessa antecipação —, por outro, há a necessidade de preservar sua potência mais imediata. Nem totalmente espontânea, nem completamente construída, mas atravessada por uma tensão produtiva entre registro e elaboração.

“Em outubro de 2023 decido que vou ler todos os meus cadernos em ordem cronológica. Começo minha missão pessoal. Ela dura exatos 11 meses a ser terminada, porém, enquanto lia os cadernos antigos, eu continuava a escrever nos cadernos “do presente”. E se eu uso em média 1 caderno a cada 2-4 meses, significa que, ao longo dos 11 meses de leitura, eu escrevi aproximadamente 4 cadernos. Eu havia dito a mim mesma que a leitura dos cadernos pararia exatamente no momento em que eu “me alcançasse” no caderno em que estava escrevendo no presente.  Mas assim que comecei a ler os cadernos do passado, também escrevi sobre o processo nos cadernos que escrevia enquanto lia. Então, em algum momento, chegando aos últimos cadernos, eu pude ler sobre meu próprio processo de leitura que estava fazendo. E depois, eu pude ler sobre “escrever sobre estar escrevendo sobre o fato de que estava lendo os cadernos”, eu podia “escrever sobre o ler sobre o escrever sobre ler os cadernos” ad infinitum. Deu pra sacar mais ou menos? São nesses movimentos internos que não resta outra que acreditar na própria loucura e linguagem. Foi bom demais.”

O caderno, por definição, é território de experimentação, de risco, de desorganização, e de muita intimidade. Transformar esse material em livro implica um gesto contrário, selecionar, recortar, dar forma e, sobretudo, permitir a entrada de um outro. Não se trata apenas de mostrar, mas de reorganizar aquilo que, até então, existia sem a necessidade de ser visto. E o que muda quando o leitor atravessa esse lugar? Emily reconhece que há intimidade ali, mas também delimita essa abertura, pois o que chega ao leitor é resultado de sucessivas reduções, um recorte preciso dentro de um universo muito mais amplo. 

“Esse livro de 200 e tantas páginas é o resultado da redução da redução da redução. O material da curadoria (que em si só já era uma porcentagem pequena de tudo que escrevi) foi reduzido tantas vezes que já não me sinto assim tão exposta. Digo, claramente existe muita exposição em relação a muitas coisas de minha vida (especialmente na pequena introdução que expõe fatos íntimos de minha história), mas como isso ainda é cerca de, sei lá, 5% dos escritos dos cadernos (se muito), também não me parece muito absurdo compartilhá-los. Até porque a doidera-true-íntima continua assim: íntima.”

Ao longo das páginas, certos elementos retornam com frequência. O corpo, o desejo, os pequenos gestos do cotidiano, a atenção às coisas mínimas que, repetidas, ganham densidade. Perguntada sobre esses padrões, Emily responde com imagens: luas, cafés, respiração, velas acesas, livros, cadernos. Uma constelação sensível que atravessa o tempo sem se fixar:

Em algum momento eu soube que a beleza e o desejo eram assuntos muito sérios para uma vida. Coisas dessas de prestar atenção de verdade. Para isso usamos as luas e os cadernos, os cafés-distrações, para isso usamos a poesia — cotidianamente.

Quase dá para chamar de dança não oferece uma síntese final. O que faz, com precisão e delicadeza, é sustentar um modo de atenção. Um modo de estar no mundo em que escrever se torna um gesto contínuo, tão integrado ao cotidiano quanto o corpo que respira, o café que esfria, a vela que se acende. Ao final, o que permanece não é apenas a trajetória de Emily, mas a força de uma prática. A escrita como aquilo que transforma sem precisar se afirmar como resposta. E talvez seja justamente por isso que o livro encontra seu título, porque há, em tudo isso, um movimento que nunca se fixa completamente, um ritmo que escapa à nomeação plena. Ainda assim, quase. Quase dá para chamar de dança.

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